Newsletter Nº5(03/05/2005)

:::www.sam-cam.com:::


Voo Aventura

Este voo, foi o primeiro a ser efectuado desde o local do Pico do Areeiro Ilha da Madeira. Sem dúvida, a realização de algo que um dia sempre sonhamos em realizar (até ao próximo!), em que o espírito de Aventura e a paixão pelo voo se unem em harmonia, transformando a união das duas e a sua sintonia no VOO MÀGICO.

 

Voo para a Penha d'Àguia

No dia 27 de Abril realizei um sonho que há muito me perseguia: voar no Pico do Areeiro. Tinha analisado as condições atmosféricas pela manhã, eram perfeitas para este voo. Mas como era uma quarta-feira não previa ir voar. Como quem não quer a coisa resolvi ir espreitar o local. Não resisti e descolei. Aterrei na Praia da Maiata, no Porto da Cruz, pouco passava da 20:30, depois de um voo solitário à conquista da Penha d'Águia. Depois de o ter efectuado, posso dizer-vos que é um voo acessível a qualquer piloto. Uma marreca! Mas é uma marreca muito especial. São quase 11 Km de voo planado com um desnível de 1800m, num cenário de cortar a respiração. Brutal!

 


O vento soprava muito fraquinho, por isso tive de descolar num venturi situado entre a estalagem do Areeiro e o caminho que vai ter ao Miradouro do Juncal. Descolei à primeira. As mãos tremiam e o coração estalava no peito. Contornei o pequeno morro que me separava da visão mais impressionante que tenho memória desde que comecei a voar: Um mar de nuvens, 400m por baixo dos meus pés, ladeado à minha esquerda por escarpas aguçadas enfeitadas por uma cascata de neblina aquecida no caldeirão do Curral das Freiras.



À minha frente o branco almofadado estendia-se até ao infinito. Reparo então numa pequena sombra a mover-se lentamente de onda em onda naquele mar de bruma. Tinha uma forma familiar. Era a minha asa. Era eu que estava ali. À volta da minha sombra estava pintado um arco-íris em forma de halo que serpenteava à medida que navegava rumo ao desconhecido.

A emoção era tanta que ainda não tinha verificado os dados do meu GPS. Mirei o ecrã de soslaio. Não queria perder nada. Estava tudo bem, o planeio era bom. Tirei então algumas fotografias para partilhar convosco, senão não acreditavam!



Chegara a hora de mergulhar naquele oceano de espuma. A Nuvem era rarefeita, mais parecia uma névoa, o que me deixou mais tranquilo. Fixei os olhos no mostrador do GPS e aguardei pacientemente a descida à base da nuvem. Próximo dos 1200m começaram a desenhar-se à minha volta, como por magia, os primeiros contornos dos caminhos, das casas e dos palheiros muito característicos daquela zona. Reconheci logo as Cruzinhas do Faial e o Ribeiro Frio. Voltei a confirmar a finesse. Tudo perfeito.


Já fora da nuvem o cenário era soberbo! Por todo o lado pequenas casinhas, que mais pareciam aquelas que os madeirenses colocam no presépio, salpicavam de vermelho o verde intenso da paisagem. Em baixo as estradas serpenteavam lado a lado com as ribeiras em direcção ao mar. Olho em frente e lá estava ela: A Penha d'Águia. O Rochedo Majestoso. Por várias vezes - quando descolei dos Lamaceiros - tentei alcança-la e não havia conseguido. Hoje serás minha!


Rumei em frente em direcção a ela enquanto os meus olhos saltitavam de um lado para o outro. Queria ver tudo e tudo era bonito. Vi o Santo da Serra, a Ponta de S. Lourenço e o Caniçal e lá em baixo o Porto da Cruz como nunca o tinha visto antes, mas era aquele Penedo Imponente que mais me prendia a atenção.



À medida que me aproximava do Penhasco das Rapinas, ia crescendo a pressa de querer chegar. Já próximo da parede de 400m fui brindado com os últimos bafos de calor guardados para mim, como se fossem um presente de boas-vindas e um convite a sobrevoar o Promontório Solitário. Aceitei o convite e fui espreitar o outro lado até avistar as piscinas do Faial.

 

 

 


Já chega de tanta emoção, pensei. Despedi-me do Calhau das Mantas com uma descida em espiral sobre o Porto da Cruz. Aterrei na Praia da Maiata e voltei a olhar para ela. Sorri.

Virgílio Bento
30 de Abril de 2005